quarta-feira, 22 de julho de 2015

Havia um homem que vivia sentado na beira da estrada. Um estrangeiro solitário, velho e sem muitas posses, ele tinha apenas o que havia restado de sua longa caminhada.
Um dia sentado como de costume ele notou uma flor. Nessa flor havia uma abelha e com essa abelha havia mel.
Ele olhou e se aproximou...

 Todas as manhãs e todas as noites ele se dava ao trabalho de regar aquela flor, pois não queria que ela morresse porque ela tinha se tornado importante pra ele porque nela havia uma abelha e com esta havia mel.
Ele pensou consigo mesmo...
 Muitas vezes observando a pequena abelha ele percebia que ela não lhe dava a atenção que ele julgava merecer.
Nessas horas ele pensava em arrancar aquela flor dali e deixar ela murchar até morrer. E de fato ele fez isso algumas vezes.
Em alguns momentos ele mesmo se arrependia e a replantava com todo cuidado...

 Outras vezes ao ver a abelha se aproximar em busca da flor ele não tinha alternativa à não ser replantá-la mesmo que com má vontade.
Mas agora ele dependia daquele mel. Já não imaginava sua vida sem aquele doce, aquele aroma, aquela sensação boa em provar de algo tão extraordinário, tão puro e tão natural...
 Por vezes incontáveis essa cena se repetiu.
Ele amava aquela abelha e dependia dela agora. Mas a abelha dependia da flor. Ele queria a abelha pra ele. A abelha queria a flor.
E por isso a flor estava sempre entre ele e a tão adorada abelha...
 Aquela flor que nunca se transformava, nunca crescia, nem virava algo melhor, assim ele pensava. Era uma simples flor.
Mas para aquela abelha aquela flor era tudo.
Era tudo que a ligava àquele homem...
 Um dia o homem vendo que a sua abelha, sua rainha, o seu amor não o via da mesma forma e precisava mais da flor para lhe dar o mel do que dele, tirou a única coisa mais importante na vida da pequena e doce abelha...
 De um só golpe ele arrancou a flor que já não estava muito bonita e saudável devido os maus tratos recebidos pelo homem e a despedaçou com as duas mãos, a esmigalhou e pisoteou e esfregou-a no chão.
-flor inútil - pensou -eu não preciso dessa flor...
 Quando a doce abelha chegou procurando por sua tão estimada flor a única coisa que encontrou foi uma bela bofetada que a jogou para longe. Sentiu o ódio espalmado lançando-a para metros dali. Seu pequeno corpo sentiu o golpe e a dor foi tão forte que ela ficou desnorteada por algum momento, paralisada, caída como um lixo...
 Ela não entendia o que havia acontecido. Como tal homem que antes parecia tão gentil e carinhoso agora lhe parecia tão louco.
Com todas as suas forças ela voltou à procura da flor mas, ao chegar lá notou que só havia um homem sentado na estrada...
 A flor não estava mais lá. Não existia nem mais vestígios, nem rastros daquela flor que um dia havia sido tão linda.
Procurou por um tempo e não encontrando decidiu se aproximar do homem antes tão apaixonado.
Ao vê-la ele disse
- Vá embora! Não existe mais flor
A abelha sem entender tentou lhe mostrar as outras flores que estavam ao redor mas, o homem irredutível dizia
-Não existe flor para você aqui abelha vagabunda e egoísta!

 Nunca mais regarei flor nenhuma para você. Se você não pode me amar e me alimentar com o seu mel e ser só minha então, eu quero que você me deixe em paz sua bruxa!
Mas a abelha agora dependia daquele homem para regar a sua flor, não queria desistir tão facilmente por isso nos dias que se seguiram toda vez que tomava um tapa, se levantava e voltava...

 No fundo ela sabia que ele a amava e era mais feliz com ela ao seu lado. Ela gostava de se sentir amada e sabia que ele era um bom homem.
Um dia porém, o tapa que levou foi tão forte e as palavras que ele disse foram tão pesadas que ela esqueceu de todo o seu doce e de um impulso tão forte, de uma cegueira tão louca ela o ferroou. Com toda a força que ela conseguiu...
 Ao ser ferroado o homem enlouquecido lhe bateu com mais força ainda jogando-a ao chão desfalecida e de um golpe só lhe pisoteou, assim como fez com a flor, fez com a sua adorada abelha.
Sentindo a dor latente daquela ferroada ele xingou e praguejou. Disse coisas terríveis em sua língua, palavras que uma abelha nem saberia o significado, tamanha era a sua raiva e revolta.
Contudo ele não podia deixar de olhar ao chão e com um fio de esperança encontrar a sua amada ainda com vida. Mas não existia mais nada. Apenas o vestígio daquele mel espalhado na estrada...

 Suas lágrimas rolaram pelo rosto e ele levou suas mãos até os cabelos e os puxou com força. Não podia acreditar no que acontecera. Mas agora já estava feito. Não havia mais volta. Não existia mais flor, nem abelha, nem mel, nem amor, nem amizade, nem manhãs e noites de conversas horas agradáveis horas nem tanto.
Não existia mais nada daquele sonho, daquele amor impossível.
Existia agora apenas um homem. Um estrangeiro solitário sentado à beira da estrada...

 Depois de muitos dias ali sentado decidiu se levantar e caminhar à procura de outras flores para regar e outras abelhas para amar.
De fato ele encontrou muitas outras, ainda mais belas e mais doces mas nenhuma como aquela. Uma abelha tão insistente, tão louca, tão amiga e companheira, tão abelha...
 Débora Garcia
11 de Abril de 2015